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Reflexões sobre a Paixão em Nova Jerusalém

Desde que a Rede Globo assumiu o espetáculo encenado em Fazenda Nova, os astros da plim plim sempre atraem multidões que deliram para ver Fábio Assunção, Marcelo Antoni, Humberto Martins, e este ano um tal de Igor sei lá das quantas, enfim... a mulherada e a rapaziada não sossegam e com essa histeria, as falas dos atores ficam entrecortadas por causa da tietagem.

É bem verdade que se trata do maior espetáculo ao ar livre do mundo e do ponto de vista teatral vale a pena conferir. Entretanto, sob a ótica da exegese bíblica, da crítica textual, da História e da Arqueologia, o espetáculo é um desastre. E para mim, foi uma tortura assisti-lo em suas 3 horas de duração, e em pé. Tinha momento que dava vontade de gritar: "corta". Pois é... estava tudo errado. Desde as roupas de alguns atores, como o cenário, por exemplo do Templo de Salomão. Os fatos envolvendo Jesus, foram colocados de forma que aproveitam um cenário para espremer todos os seus ensinos de uma só vez. E não faltaram, é claro, as novidades.

Logo de início, surgem dois espíritos, um representando Moisés e outro ao que parece era Abraão. Estas figuras citam os primeiros versículos do evangelho atribuído a João acerca do "verbo que se fez carne." Ou seja, logo se percebe que a base da narrativa será católica, "um Deus tornado Homem". E assim ocorreu. Em todos os momentos aparecem palavras tipicamente católicas, o que terminaram por transformar Jesus, um bom judeu, em um bom católico, pagador de promessas.

Outras vezes, o texto usado é o de Marcos que se mistura com algo de Lucas, e mais uma vez se estabelece uma verdadeira salada exegética. A ordem das discussões em torno da morte de Jesus não obedece aos roteiros dos evangelhos, nem tão pouco, nela aparece Jesus expulsando os vendilhões do Templo. A mulher pega em adultério mais uma vez é confundida com Maria Madalena, o que resgata a visão católica de colocá-la como meretriz e afastá-la do lugar de destaque que tinha ao lado de Jesus.

Um outro ponto curioso é a tentação que Jesus sofre de figuras satânicas. Naquele tempo, muitos judeus buscavam o deserto, como motivo de inspiração e meditação. Havia também uma crença que nele existiam almas que vagavam perdidas. Não se pode esquecer que todo herói nasce do contato com o deserto, era assim com os gregos. Porém, o que mais nos interessa na cena, é ver os demônios tentando Jesus com as mesmas tentações que Buda sofreu. Coincidência? Você acredita em coincidência?

Antes de falar da morte de Jesus, vamos a de Judas. Nos evangelhos ele se enforca, mas em Atos dos apóstolos, com o dinheiro que ganha com a morte de seu mestre, compra um terreno, até que certo dia um instrumento cortante, rasga seus intestinos e ele morre. Até hoje em Israel há um pedaço de terra, chamado de "campo de sangue", supostamente comprado com o dinheiro da venda de Jesus. E agora vamos acreditar em qual morte? A do suicídio? Ou a do acidente no campo? Este é um caso para o CSI- FAZENDA NOVA. E o pior é que as pessoas se envolvem em tanto ódio ainda por Judas, que quando este sai do sinédrio após entregar Jesus, um homem que estava ao meu lado na plateia, disse, "vou pegá-lo ali na esquina pra ele ver o que é bom pra tosse." Pronto! Bastou o pobre se suicidar, que a multidão foi ao delírio. Foi a cena mais aplaudida! Já a das bem-aventuranças o público saiu em silêncio, e ainda me roubaram uma garrafa de água mineral. Justo depois de Jesus ter ensinado que "ajuntássemos tesouros nos céus".

Não pode ficar de fora da nossa análise, a cena canibalística que ocorre na Santa Ceia. Digo isto porque nenhum judeu ergue o vinho para o alto e divide o pão e pede para os outros comerem e beberem como se aquilo fosse seu corpo e seu sangue. Mais uma celebração católica, a Eucaristia!

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Vale lembrar que esta é uma celebração das hordas primitivas, segundo Freud, onde comer a carne e beber o sangue do líder da tribo, passava a crença de que todos iriam gozar de seu poder. Depois, quando viam que nada ocorria, eles, se colocavam aos prantos e choravam em culpa, aguardando que ele ressuscitasse. Igualzinho aos cristãos. Para o desfecho, típico de novela das oito, os atores repetem a cena de Da Vinci, congelando a imagem da Santa Ceia e todos ficam na posição da famosa tela. Mas é claro que não chamaram Madalena para fazer parte dela. Não iria pegar bem, ver Pedro com uma faca ameaçando cortar o pescoço da esposa de Jesus.

Quanto a questão do julgamento, realmente é por demais contraditório. Caifás nem espera as festividades passarem e a cena que envolve o ator Humberto Martins, no papel de Pilatos, reflete o que há em Mateus 27, 24-25, onde os judeus pedem o sangue de Jesus, deixando claro a responsabilidade deles sobre sua morte. E sabe qual a consequência desse arranjo proposital? Judeus e cristãos se odeiam até hoje. Vale a pena aplaudir a forte cena dos cavalos romanos entrando em cena. Isto foi belo!

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Do ponto de vista histórico, no ano 36, Pilatos foi mandado de volta a Roma por ordem de Tibério, pois não conseguia mais conter os motins que se espalharam pela região.¹ O senhor Paulo de Tarso, grande perseguidor e assassino de cristãos e o maior deturpador da mensagem de Jesus, também fez de tudo para tirar dos romanos a culpa da morte do Nazareno.

No tocante à morte de Cristo, mais um erro. Os copistas plagiaram as passagens de Sl 22,19 e de Is 53,10. Esta passagem é clássica. Envolve a cena do bom ladrão, sorteio das vestes de Jesus e a promessa do Nazareno ao ladrão, de que ele iria a partir daquela hora "roubar" no céu. Típica cena católica para quem aprontou muito no mundo e com o perdão da Igreja na hora da extrema unção, paga pela salvação e fica tudo garantido no Paraíso. Outro detalhe da cena é a terrível frase colocada na boca de um Jesus revoltado, quando ele pergunta a Deus porque ele o teria abandonado. A inovação agora é por parte da La Pietà esculpida por Michelangelo e que a repetem na descida do corpo da cruz. Vai ver ele estava lá e tirou uma foto para mais tarde na idade média reproduzir.

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Bem, estas foram minhas impressões iniciais acerca do maior espetáculo ao ar livre do mundo. Quando fui pela primeira vez eu era um garoto e Jesus ainda não tinha ressuscitado. Como uma bela peça teatral, por isso mesmo deveriam ter uma maior preocupação com os fatos e sua ordem, bem como, com a estrutura histórica da Palestina do século I. Falaram mais de um Cristo católico do que de um Jesus Histórico, um homem apaixonante e sedutor que apesar de todas as adulterações em sua imagem e mensagem, nos marcou ao ponto de tornar-se o maior enigma para aqueles que sinceramente o buscam.

 

 

FOTOS: LISZT RANGEL

Read 1184 times Last modified on Segunda, 17 Julho 2017 13:10
Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.

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