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"Noite Feliz, Noite feliz..." - Para quem?

Não se sabe se foi de noite ou de dia que se deu o nascimento do Cristo da Fé. Tão pouco, se conhece o ano exato do nascimento do homem Yehoshú'a. Pesquisadores se baseiam no Evangelho de Mateus, 2,1, que narra a sua chegada, durante o Governo de Herodes. Assim, partem do pressuposto de que se Herodes morreu em 4 a.C., então ele, Yehoshú'a, teria nascido antes de Cristo, por volta de 7 e 5 a.C.

A data e o ano Domini foram criados pela Igreja Romana com fins de estabelecer uma maior conversão dos romanos pagãos e de outras etnias, aproveitando-se das comemorações do Solistício de Inverno. Tais comemorações em homenagem ao nascimento do deus pagão, Mitra, tinham início no dia 16 de Dezembro e culminavam no dia 25. Eram festas alegres, onde as pessoas trocavam presentes, se permitiam a muitas orgias sexuais, comiam e bebiam fartamente.

O inverno era sempre rigoroso, e quando este se ia, não havia o porquê de não se comemorar a chegada de um novo período, simbolicamente trazendo esperanças para um ano novo. Porém, o que havia para comer, se estava no fim do inverno? Alimentos que tinham sobrado e que estavam nos celeiros. Uvas, figos, amêndoas, nozes, e diversos cereais haviam ressecado por causa do frio. Esta era a base da ceia romana cristã, e por que não dizer pagã? Afinal de contas, o Cristo é pagão!

Um outro objetivo, visava não apenas incorporar as festividades pagãs ao Cristianismo, mas também, tomar a cultura dos "pagãos", cuja origem significa "aquele que vive no campo". Com essa perseguição, a expressão latina paganus passou a ter uma conotação pejorativa, com fins de extermínio de várias etnias, culturas, crenças, e ao lado de tudo isso, livros... Os mais antigos da Humanidade foram destruídos, como os que se encontravam na Biblioteca de Alexandria. O intuito, em verdade, do vandalismo foi o de que não sobrassem testemunhas da fé, muito menos rastros de qualquer indício de onde o Cristianismo tivesse se apropriado de sua identidade.

A divisão entre cristãos e judeus incentivada por partidários do Cristianismo nascente alimentava cada vez mais o ódio, proveniente das primeiras gerações dos seguidores do tal Cristo. Este cisma surge entre os agrupamentos, liderados por Paulo de Tarso, Barnabé e outros.

De um lado, pescadores analfabetos, gente do campo da Galileia. Pedro, João, Tiago e outros que não eram partidários de uma ruptura na cultura judaica. Estes limitavam-se a acompanhar Yehoshú'a, pois eram seus amigos. Uns o acolhiam em casa, outros patrocinavam suas andanças, ainda haviam os cabeças do grupo que o seguiam, praticamente, para todos os lados. O Jesus Histórico chegou a morar com Simão, sentou-se a mesma mesa com seus amigos simples, pescou e trabalhou ao lado deles, porém a maior parte daqueles amigos não compreenderam a grandiosidade de sua Filosofia.

Se os que o conheceram, não alcançaram seu pensamento, e os que vieram depois? Homens lustrosos na palavra, pessoas cultas, doutores da Lei, como Saulo, insatisfeito com o rumo que o Judaísmo tinha tomado, sedimentou a pedra principal de seu discurso precipitado e confuso que acabou por servir de base para a fundação do Catolicismo e do Protestantismo, deturpando assim, o pensamento do Galileu. "Não posso deixar de afirmar que Paulo foi um dos que mais levantou o Judaísmo contra o Cristianismo", (RANGEL, 2008).

O Cristianismo de Paulo nasce de uma ruptura com o Judaísmo, abrindo espaço com a multiplicidade de Igrejas que ele e seus amigos fundaram, para a estruturação de uma futura religião, que nem ele com todo seu intelectualismo, poderia conceber, o Catolicismo Romano. Miranda (1988), chega a mostrar o grave erro de Paulo, quando escreve, "A estrutura que Paulo começou a esboçar com a sua pregação, não é de fato, a que Jesus propôs, dado que este nada propôs neste sentido."

A outra, na Idade Média, fruto da insatisfação e da indignação de Martinho Lutero e alguns colegas, não escapa de ser fundamentada também em Paulo e nas falsas cartas que levam sua assinatura, produzidas por copistas desde o tempo da Igreja Primitiva. Ou seja, a última, o Protestantismo, é um retalho de um tecido reciclado em uma roupa suja e rasgada... Essa costura não podia dar certo!

A questão política e teológica abre espaço para uma batalha perigosa e que não terá mais como retroceder no tempo. Em nome da prioridade que Deus teria feito pelos cristãos, quando viu que os filhos de Abraão haviam falido na tentativa de salvar a Humanidade, foi eleger Cristo como fundador de uma nova ordem religiosa, a que tem como objetivo converter o mundo inteiro e execrar os hereges de várias ordens. Filósofos, pensadores, místicos, religiosos de outras denominações, como muçulmanos, hinduístas, judeus, enfim, todo aquele que não se tornar cristão, será alvo fácil de perseguição e morte.

E o terror dos séculos I, II, III, IV e V d.C. entre cristãos e judeus, atravessa o tempo, envolvendo também os muçulmanos. Passa por Saladino e as Cruzadas, ressurgindo na madrugada de 24 de Agosto de 1571 com a terrível Noite de São Bartolomeu e chega a uma bela manhã em Manhattam, no dia 11 de Setembro de 2001, ecoando na noite de 13 de Novembro de 2015 em Paris.

Será que a noite dessas vítimas é tão feliz quanto a do nascimento do Menino-Deus? Criado e manipulado para obtenção de uma felicidade às custas de um poder passageiro, sobre os que, simplesmente, pensam e creem de forma diferente, o Cristo da Fé e seus convertidos fervorosos e fanáticos se aliam aos radicais muçulmanos tocam fogo na Humanidade e passam a assombrar as ruas das maiores cidades do Mundo.

Finalmente, a qual noite feliz os cristãos se referem?

FOTO: Liszt Rangel

BIBLIOGRAFIA:

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulus, 2003.

MIRANDA, H. Cristianismo: A mensagem esquecida.São Paulo: Editora O Clarim, 1988.

RANGEL, L. O Cristianismo de Yehoshú'a - a busca pelo evangelho perdido. Recife: Editora Bom Livro, 2008.

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Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.

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