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RAMSÉS II, O GRANDE, publicitário!

Se levarmos em conta a estatura de 1,63m de Ramsés, não dá para chamá-lo de O Grande. Foi considerado como tal pelo seu gênio bélico, pela propaganda que espalhou em todo o país, quer através das suas imagens sempre esboçando poder quer pelas Estelas de pedra que ainda hoje sobrevivem juntamente com outras inscrições como as encontradas no templo de Luxor que narram a trajetória das grandes campanhas vencidas por Ramsés. Outras guerras que exaltam as conquistas do faraó da 19ª Dinastia aparecem nas paredes do Ramesseum, espécie de templo funerário construído por ele, situado à Oeste do Nilo, em frente a Luxor.

RAMSÉS IIQuando iniciaram as escavações, a figura de Ramsés II, ainda não eram bem definidas, tão pouco suas grandes batahas. Graças à Arqueologia e à História, aliando a cultura material, achados, e o conhecimento do que até então, se sabia por diversos textos, foi que a imagem de ramsés II passou a tomar novas dimensões.

Ele subiu ao trono no ano de 1279 a.C. e seu reinado durou 66 anos. Em 1976, em Paris, exames feitos na múmia do grande faraó, revelaram um homem de baixa estatura, cabelos ruivos, costas arqueadas e que sofria de artrite, abcessos dentários e chegou aos 80 anos de idade.

Ramsés foi um notável administrador do Egito e também um grande publicitário de suas campanhas. Apesar de ter se envolvido em várias batalhas, desejava manter a paz com os povos vizinhos, dedicando-se com muito esforço a preservar as conquistas de seus antecessores que alargaram os domínios do Egito desde a Núbia até a atual Turquia. Em Abul Simbel, ao sul do Egito, realizei pesquisas em um dos mais belos templos construídos por Ramsés II. Dedicado aos deuses Rá, Amon e Ptah, sua fachada ostenta quatro estátuas gigantes com vinte metros cada uma e que representam o faraó sentado. Para a construção em Abul Simbel, ele saqueou outras pirâmides e dilapidou monumentos com o objetivo de arranjar material necessário para as suas obras.

Na foto ao lado, tirada por Maxime du Camp em 1850, tem-se a dimensão da grandiosidade das imagens e também percebe-se que a entrada estava soterrada.

Ramsés mandou construir quatro estátuas de sua imagem à entrada do templo no complexo, e cada uma possui 20 metros de altura. Em outro templo, dedicado à amada esposa Nefertari, ele ordenou que construíssem seis estátuas dela, porém estas parecem representar a deusa Aton, envolta em plumas e cornos de vaca, e ostentando o disco solar. Ao lado de cada uma, aparecem duas estátuas dele, como se ele quisesse passar a imagem de guardião da esposa, ou seria ela até a própria deusa? Levanto esta possibilidade devido ao fato de Ramsés subir ao trono após o reinado de Akhenaton que implantou o monoteísmo, porém acabou colocando a si e a sua esposa, a famosa Nefertite, como únicos deuses a serem reverenciados. Ramsés queria o politeísmo de volta e para isso colocou em Abul Simbel as imagens dos deuses Ra-Harakhty, Ptah e Amun.

Observe como se encontram as quatro estátuas em Abul Simbel, e através de reconstituição feita em computação, dá para se ter uma ideia de como era o Templo com seus sacerdotes egípcios.Abul Simbel 3

Grandes construções, ou como as conhecemos com o nome de "obras faraônicas", não apenas serviam para guardar a memória do faraó na sociedade, mas para impor medo e respeito aos povos que aventurassem invadir o Egito. Era um aviso de poder e ameaça certa de punição! É neste sentido que Ramsés II pode ser considerado o Grande, como um visionário estrategista, um homem que sabia usar bem o marketing pessoal. Em um dos registros de suas batalhas que tive a oportunidade de conhecer, pude ver a falsa narrativa da vitória de Ramsés II na batalha de Qadesh, local onde hoje está situada Beirute.Abu Simbel 1

A guerra em Qadesh contra os hititas foi um desastre para Ramsés. Seus exércitos foram massacrados e a batalha terminou com a fuga vergonhosa do faraó. Os espiões do faraó deram-lhe informações erradas acerca da localização dos hititas e depois do ocorrido, foram afastados dos cargos. Mas, ao chegar em casa e reunir a nobreza, o sacerdócio e os filhos, o faraó contou que fora vitorioso e que havia subjugado o povo hitita. No templo em Luxor, esculpido em rocha natural às margens do Nilo, com suas paredes inclinadas semelhantes as de uma pirâmide, lê-se a fantástica, porém mentirosa vitória de Ramsés: "Sua Majestade, massacrou todo o exército do país hitita, com os seus grandes senhores e todos os seus irmãos. A sua infantaria e as tropas dos carros de combate tombaram de face em terra, um sobre o outro. Sua Majestade matou-os e eles ficaram sepultados em toda a extensão diante de cavalos. Contudo, sua Majestade estava só, ninguém o acompanhava."

Ao que tudo indica, esta mania de se colocar como povo invencível e fazer campanhas publicitárias usando a máquina do governo para distorcer os fatos não ficou no passado. Esta ideia milenar, ainda hoje nos persegue, quer na postura narcisista e ufanista norte-americana, quer entre os líderes da corrompida nação brasileira que sonha em ser, exclusivamente, o país que irá levar Humanidade à redenção. Outros povos bem mais inteligentes, instruídos e cheios de códigos de ética e moral, também pensaram e se definiram assim, porém faliram.

Ramsés teve mais de 50 filhos e várias esposas, é claro! Os estudiosos bíblicos cristãos e historiadores judeus o colocam como o faraó protagonista da célebre passagem da fuga dos hebreus do Egito, o famoso e controvertido Êxodo. Este tema já foi abordado em meu livro, Por Que Jesus? - Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Ramsés II foi, sem dúvidas, grande, um grande edificador de templos e pirâmides, um grande faraó, um grande general e também um grande marketeiro.

Read 2516 times Last modified on Segunda, 17 Julho 2017 13:10
Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.

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